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As Forças de Defesa de Israel III – decisões difíceis de serem tomadas: Minhas observações pessoais e um caso verídico

 
Nós, cidadãos civis (e aqueles de nós que serviram como soldados), estamos cientes do quão difícil pode ser servir às Forças Armadas de Israel. Porém, a maioria de nós não sabe bem e nem compreende o modo como novos imigrantes são vistos dentro deste órgão.
 
Sistema de grande porte tais como o Sistema Militar não estão isentos de falhas; cometeu-se erros no passado, e se continuará a fazê-lo no futuro. Naturalmente se deve utilizar destas falhas para que se possa realizar um aperfeiçoamento, mais cedo ou mais tarde.
 
Este artigo tem como finalidade exclusiva proporcionar ao novo imigrante uma visão interna sobre a decisão de servir às Forças de Defesa, e uma certa dimensão do que um jovem novo imigrante deve ou não esperar das Forças Armadas.
 
A democracia e as Forças Armadas:
Naturalmente estes dois conceitos não podem coexistir, ainda que hoje em dia se verifique uma maior possibilidade de se poder tratar de "pedidos pessoais ou necessidades específicas". Hoje em dia as Forças de Defesa de Israel são providas de meios de comunicação muito melhores e flexíveis entre o soldado, sua família e a cadeia de comando militar, mas não se engane pensando que existe alguma intenção de transformar tudo em um "sistema democrático".
 
A incomum cadeia de comando militar:
Recordo-me de, há muitos anos atrás, como um jovem sargento, de ter recebido ordens de preparar um novo grupo de soldados, em um treinamento básico. Todos eram novos imigrantes, provenientes de diferentes países. Suas idades variavam de 30 a 40 anos, falavam diferentes idiomas, tiveram acesso a diferentes níveis de educação e títulos acadêmicos, e quase todos tinham uma família e filhos que os aguardavam em casa.
 
Me pergunto em que outro país do mundo seria viável um programa como este (chamado de "Shlav Bet"), com novos imigrantes recentes lado a lado a mais antigos, tais como eu: um sargento de apenas 22 anos, comandando sozinho todas estas pessoas. Este é o encanto das nossas Forças Armadas. A interação, a união e a disciplina natural, na qual um jovem comandante pode dar ordens a um portador de título de Doutorado, e ser obedecido! E tudo em um idioma que mal se pode compreender.
 
A função do comandante:
Uma das melhores e mais importantes lições que se aprende, já nas primeiras etapas do treinamento como um comandante das Forças Armadas, é o fato de que, sob o uniforme e o "número individual" de cada um, há um ser humano com necessidades específicas.
 
Outra grande lição que utilizei durante o todo meu serviço militar foi que a principal incumbência de um comandante, além de cumprir as suas missões, é a de que temos um dever moral e militar de enviar para casa cada um dos nossos soldados, ao final da missão ou do serviço militar, são e salvo.
 
As decisões difíceis:
Há momentos nos quais um novo imigrante pode vir a ter necessidades diferentes dos demais soldados – este é um fato que nem sempre é bem visto ou compreendido pelo comando das Forças Armadas. É impossível atender a toda e qualquer necessidade especial ou pedido. O que um soldado deve ter em mente é que, ainda que lhe seja negado um pedido, ele não deixa de ser um soldado, e deve se submeter às ordens que recebe e às leis militares, quer goste, quer não. Caso assim não proceda, poderá se ver em uma situação bastante desagradável, e com sérias consequências.
 
Lembro-me de ter funcionado como juiz militar (como Comandante de Companhia que tem a função de juiz frente aos soldados que servem sob seu comando), e tendo sido obrigado a tomar uma decisão que somente poderia acontecer em Israel.
 
Imagine um capitão veterano, de 30 anos, tendo que julgar um soldado de 35 anos, que contrariando as ordens recebidas se ausentou da base e foi para sua casa, lá permanecendo por 48 horas, sem ter recebido permissão para tanto. No momento em que retornou à base para reportar-se ao seu comandante, teria que ser punido pela sua ofensa – ofensa esta muito séria, definida sob os auspícios da lei militar – o abandono de serviço.
 
Eu conhecia este soldado. Eu sabia que era um soldado exemplar, e não compreendia por que ele havia feito isto; portanto, no interrogatório fiz a ele uma única pergunta: "Por que? Por que você fez isto?" Para minha surpresa, ele se recusou a esclarecer, dizendo apenas: "Senhor, estou disposto a pagar o preço da minha conduta." Fiquei chocado e mal pude acreditar no que estava ouvindo, mas a lei é clara, e decidi mandá-lo para a prisão por sete dias, iniciando-se na manhã seguinte.
 
Eu permaneci sem compreender, e não estava certo de ter tomado a decisão adequada. Decidi então telefonar para o Rabino-chefe da Divisão, já tarde naquela noite, e pedir uma orientação. Ele pediu algumas horas para refletir. De manhã cedo o Rabino me disse: "Tenho a sensação que ele está nos escondendo algo – fale com a esposa dele." O quê? Mas para que? Ela não é um soldado, e não posso fazer isto – somos militares, e terapia familiar não é a minha área! Então ele me deu uma ordem militar bastante simples e clara: "Muito bem – então esta é uma ordem – faça isto já."
 
Telefonei para a esposa do soldado, que já estava ciente da minha decisão de mandar seu marido para a prisão. Para a minha surpresa, ela se comportou de uma forma muito polida ao telefone. Precisei lançar mão de muita psicologia e algum tempo para ter uma resposta honesta. Ela me contou que há mais de 8 anos vinham tentando ter filhos, sem sucesso. Eles chegaram a tentar alguns métodos experimentais nos EUA, e após a Aliá, até fizeram algum progresso, mas infelizmente esta era a sua última oportunidade, e no caso de falha, seriam obrigados a recorrer à adoção.
 
Naquela data decisiva, o marido, o soldado que deixou a base sem permissão, pretendia ir para casa por um curto período de folga, porém, como ocorre com frequência, houve uma mudança de ordens que fizeram com que tivesse que se cancelar a sua saída, o que significava que ele deveria estar a serviço naquele dia. Eram justamente os dois dias nos quais deveriam "estar juntos". Ela me pediu que não comentasse com o marido, já que ele se sentiria um tanto embaraçado por ela. E agora, o que poderia fazer? Tinha que encontrar uma saída de alguma forma. Então novamente telefonei para o Rabino, que apenas me disse que tomasse "a melhor decisão na posição de comandante", e desligou o telefone. Ótimo – e agora?
 
Não se pode dizer que esta história tem um final totalmente feliz, já que o casal não conseguiu ter o filho que tanto desejavam, e desde então, perdi o contato com eles, mas eu sabia que, para a prisão ele não poderia ir. Precisei trabalhar duro dentro do sistema para convencer meu superior a cancelar todo o processo, "como se nunca tivesse acontecido". Ao invés disto, mantive o soldado detido na base (uma espécie de prisão domiciliar), por 14 dias.
 
A decisão pode soar simples e fácil, mas devemos levar em conta que não se trata apenas de um soldado e os atos de um comandante. Estamos tratando de mais de 300 soldados e o mau exemplo de se deixar a base sem autorização, bem como a abertura de maus precedentes ao não se proceder à punição de um infrator. Isto poderia afetar seriamente a disciplina. Não havia como deixar de contar o caso a ninguém, e não se poderia simplesmente ignorar o ocorrido, de modo que precisei criar uma situação na qual atendi às necessidades de um soldado, mantive a disciplina de um batalhão inteiro, e demonstrei que um procedimento legal não pode ser ignorado. Para este propósito criamos uma "mentira inocente", explicando que o soldado sofrera de uma enfermidade e que não poderia ser mantido em uma cela. Deu certo, e todos compreenderam.
 
Moral da história:
Você pode imaginar agora o quão difícil pode ser com um único soldado. Agora imagine como é com um batalhão ou um Exército enorme composto por mais de 150,000 soldados, de diferentes origens, vivendo em um pequeno país onde todos conhecem a todos.
 
Ao se alistar ou quando seus filhos de alistarem nas Forças Armadas, lembre-se que ele/ela não é o/a único(a) que tem necessidades especiais. Não se esqueça porém de que eles não estarão sozinhos, nem que seja por um segundo. As Forças Armadas Israelenses não são apenas um forte Exército, mas também uma forte família. Considere isto, e tenha fé. No entanto, se fôr o caso, existem algumas maneiras de recorrer de qualquer decisão.
 
 
Atenciosamente, 

D. Henrique (Tzvi) Szajnbrum, Advogado.

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