Caso Verídico II
Ponto de vista jurídico e humano:
O Direito de Educar, o Dever de Educar e a Família
Como estabelecer limites e regras de comportamento para os filhos sem enfrentar complicações legais? Ou como não enfrentar a verdade para evitar o que no final será uma verdadeira tragédia para a família inteira?
Para aqueles que têm filhos adolescentes e estão preocupados com coisas estranhas que andam acontecendo, recomendo ler essa história.
Como sempre, os dados pessoais foram alterados para que os personagens fiquem incógnitos.
Pedro, homem sério e trabalhador; não pensou duas vezes quando, aos 39 anos, recebeu uma oferta de trabalho como especialista em soldagem de canos em Israel. Arrumou as malas e veio com a esposa e dois filhos para cá (Israel) em 2007.
Mariana, sua esposa de 33 anos, nunca gostou da idéia, mas seguiu seu marido. Com eles, vieram dois filhos adolescentes: Mauricio, que tinha 15 anos, e Zeca, com 17.
Ao contrário de Zeca, Mauricio adorou Israel e se adaptou muito bem e muito rápido. O fato de não ser judeu, não afetou em nada.
Zeca fez muitos amigos e parecia estar feliz na presença deles. Porém, no âmbito familiar, começou a criar muitas dificuldades e, com o decorrer dos meses, iniciou-se um processo de alienação da família.
Zeca não parava em casa e, quando lá se encontrava, nunca gostava de participar de nenhuma atividade da família. Na escola, Mauricio ia muito bem apesar das dificuldades com o hebraico. Zeca não mostrava interesse especial nos estudos, porém não faltava às aulas e suas notas eram razoáveis. Assim sendo, os pais não ficaram preocupados – as notas eram boas!
Pedro e Mariana trabalhavam muitas horas por dia. Ele, como soldador de canos e ela, em limpeza de casas. O salário dos dois, somado, era dez vezes maior do que no Brasil, tanto é que conseguiam economizar todos os meses e mandar dinheiro para o Brasil para lá comprar uma casinha.
Depois de um ano, o comportamento de Zeca começou a mudar e algo não estava certo; Mauricio estava sempre fugindo da companhia de Zeca e os pais não conseguiam entender o que estava errado.
Na escola as coisas começaram a deteriorar e Zeca abandonou os estudos. Mauricio se fechou mais e mais no seu próprio mundo. Zeca não comia em casa e emagreceu muito. Sua atitude mudou, ele estava distante, muito distante. De vez em quando, os pais percebiam que o dinheiro que estava na carteira “sumia”, mas decidiram não “fazer muito assunto” disso. Zeca, de vez em quando, até ajudava nas compras, mas os pais “esqueceram-se” de perguntar de onde vinha o dinheiro (Zeca não trabalhava e não recebia mesada dos pais).
Os erros cometidos pelos pais e a vontade de ver somente o que “queriam ver” causaram o “terremoto” que modificou suas vidas para sempre. Pedro e Mariana não queriam confrontos com o filho e resolveram “esperar” para que as coisas mudassem de rumo. Pelo menos “Mauricio era um excelente menino” - assim eles viviam falando um com o outro.
Numa quarta-feira, às 7h, batem à porta da casa da família. É a policia perguntando por Zeca e os pais, mortificados e sem saber o que fazer ou a quem procurar por ajuda, levaram os policiais ao quarto dele. Zeca não estava no quarto e os pais como sempre, não “prestaram” atenção e nem sabiam que o garoto não havia dormido em casa.
A polícia encontrou no quarto vários objetos estranhos aos pais, porém muito conhecidos a polícia como “bangüê” e vários outros “utensílios” para fumar maconha. Mauricio foi detido e levado para a delegacia.
Final da história: quando entrei no caso, sabia que era um caso perdido. A família não tinha direitos como imigrantes pela lei do retorno e a expulsão seria coisa de semanas. Os pais, que preferiram “fechar os olhos” para não ver o que estava acontecendo em casa, passaram por um trauma enorme. Viviam negando que isso pudesse ter acontecido com o "nosso Zeca".
Dois dias depois, Mauricio estava em casa deprimido e Zeca, preso por uso e tráfico de drogas (drogas leves para sua sorte). Mauricio, interrogado por várias horas, não agüentou e contou a polícia tudo o que sabia sobre a vida “secreta” de Zeca. Ele entregou vários amigos do irmão, assim como o lugar onde o próprio irmão traficava.
Em janeiro de 2009, a família foi extraditada para o Brasil e voltou a morar numa pequena cidade (50 mil habitantes) no sul do país.
Perdi o caso e a família ficou destruída. Pelo que eu sei, Zeca e Maurício não se falam e se odeiam. Enquanto Zeca culpa o irmão por ter delatado a ele e seus amigos, Maurício quer ver o irmão morto por ter destruído um futuro maravilhoso para sua vida. Os pais estão separados. Mariana culpa Pedro de tê-los levado para Israel e Pedro culpa Mariana por estar em casa e não “ver” o que se passava com o filho. Acima de tudo, os dois se culpam mutuamente por terem sido tão indulgentes e permissivos com o filho.
Com Zeca, não sei o que aconteceu, mas sei que Mauricio deixou a escola e trabalha como soldador de canos. O dinheiro que a família economizou por mais de um ano, acabou sendo gasto com advogados e dívidas enormes que Zeca fez em nome dos pais.
Em Israel, temos centenas de casos desses. São amigos, parentes e vizinhos que usam a política do "disso não se fala" para que “ninguém saiba” o que esta acontecendo dentro de sua casa.
Nossos filhos são maravilhosos e é claro que queremos o bem deles. Fechar os olhos e não ver a realidade é a melhor receita para a próxima tragédia. Em caso de necessidade, procure as várias organizações que tratam de assuntos referentes à vício em drogas. O futuro dos seus filhos, enquanto estiverem em sua casa, é de sua responsabilidade. Não permita que uma visão idealizada dos seus filhos impeça você de ser um pai ou mãe ativo e atento.
Atenciosamente,
Dr. Henrique (Tzvi) Szajnbrum, Advogado.

