Não vale a pena se aborrecer com futilidades II
Esta é uma série de breves artigos que exemplificam o porquê de não se aborrecer com coisas irrelevantes. Então, determine a sua prioridade, e seja esperto.
Neste momento vamos falar sobre as empresas de telefonia celular versus os direitos dos consumidores:
A Sra. Smith, nova imigrante vinda da Grã-Bretanha, chegou a Israel com uma dose demasiadamente grande de expectativas, inversamente proporcional a um quase insignificante conhecimento do que poderia de fato encontrar.
A Sra. Smith, cujo Hebraico era precário (ela até conseguia compreender bem, mas tinha muitas dificuldades em ler e falar a língua com alguma fluência), enfrentou a sua primeira "missão" como consumidora israelense. Ela pretendia se inscrever em um dos muitos planos oferecidos pelas empresas de telefonia celular, e adquirir seu primeiro telefone celular como cidadã israelense. Infelizmente este foi o último passo que pôde dar com um grande sorriso nos lábios, já que, a partir de então, as coisas apenas se deterioraram para ela.
A Sra. Smith teve que esperar mais de 40 minutos para poder ser atendida pelo funcionário. Polidamente ela ainda fez uma humilde observação acerca do tempo de espera, apenas para receber uma repreensão nada amigável do referido representante: "A senhora poderia ter agendado uma reunião antecipadamente pela internet."
Ela ficou sem ação, pensando consigo mesma que havia sido uma resposta muito rude e desnecessária, mas achou por bem relevar a conduta. Pediu então para ver informativos em inglês, explicando os diferentes planos e preços, para que pudesse ponderar e decidir qual lhe seria o mais adequado.
Novamente a resposta recebida veio rápida e afiada: "Não temos folhetos explicativos, temos uma lista dos diferentes planos, porém a senhora terá que me perguntar sobre os preços, já que tudo depende de onde a senhora trabalha, etc. Aliás, não temos nada em inglês, estamos em Israel, sabia?" A mulher ainda estava digerindo o que acabara de ouvir, quando a resposta teve a sua complementação: "Não se preocupe porque eu poderei lhe dizer qual é o melhor plano."
Esta foi a gota d`água. A Sra. Smith decidiu pedir para conversar, em inglês, com um gerente. Ela insistiu exaustivamente nisto, mas para seu desalento, foi informada de que não poderia ter seu pedido atendido, "principalmente por causa do seu forte sotaque britânico". Ela então pôs-se a chorar.
A Sra. Smith deixou o local e se dirigiu a sua casa com uma nova sensação dentro do coração. Decidiu ensinar a estas pessoas um pouco de boas maneiras, e educá-las para que aprendessem a fornecer serviços de uma forma mais apropriada.
Seu primeiro passo foi redigir uma carta ao "gerente local", daquele estabelecimento específico, descrevendo não somente o ocorrido, mas também informando como ele deveria melhorar o serviço. A carta ficou extensa, com duas folhas, escritas em inglês. (a minha impressão é a de que a carta foi jogada no lixo, tão logo foi recebida).
A estória toda manteve a Sra. Smith ocupada e furiosa. Ela não entendia o porquê de a segunda carta, enviada à empresa de telefonia celular (desta vez enviada ao gerente geral da mesma) ter ficado sem resposta, e por que não poderia ter seu requerimento de "um pedido formal de desculpas" atendido.
No final de tudo, a Sra. Smith decidiu se dirigir a uma empresa de telefonia celular diferente, desta vez acompanhada de um amigo, igualmente não muito fluente em Hebraico. Ela aderiu a um plano e foi informada sobre os pagamentos. Como ela comentou posteriormente, teria recebido também "todas as informações necessárias à assinatura do contrato".
Infelizmente, as coisas não se resolveram aí. Três meses depois da assinatura do contrato ela descobriu a incompatibilidade entre os preços que lhe foram dados e o que ela de fato estava pagando no banco.
Ela tentou de tudo, mas não obteve resultados.
No entanto, jamais desistiu de seu intento. Contratou um advogado, esperando que ele a representasse nos seguintes pedidos:
Da primeira empresa de telefonia móvel:
Um pedido formal de desculpas, por parte da administração central; uma cópia do contrato em Inglês; uma relação dos diferentes planos oferecidos ou ao menos alguns panfletos explicativos em inglês; e uma consulta na mesma loja, realizada por um gerente que entendesse Inglês ou ao menos algum funcionário mais instruído.
Da segunda empresa de telefonia móvel:
Requereu o cancelamento do contrato; um pedido formal de desculpas da administração central devido à informação enganosa que lhe foi prestada; sanções e indenização pelos danos causados.
Agora, a Sra. Smith passou a colecionar mais uma decepção. Ela pensa que os advogados em Israel sabem sobre os direitos dos consumidores e permanecem inertes, simplesmente pelo fato de um advogado ter se recusado a representá-la, nos termos acima descritos, ainda que em troca de honorários.
Eu tive uma consulta com ela, apenas para novamente desapontá-la, já que também nós nos recusamos a representá-la na sua pretensão. No entanto, nos oferecemos para redigir um documento de uma página, requerendo um cancelamento do contrato.
Asseguramos a ela a vitória, que o contrato seria revogado de modo a lhe economizar mais 15 meses de altas despesas, tudo pelo valor de uma taxa de 50 shekels (a ser pago não a nós, mas sim ao Tribunal de Pequenas Causas). Tentei convencê-la a não se aborrecer com este incidente, mas não obtive sucesso. Ela persistiu na determinação de querer melhorar o serviço em Israel, na importância de "dar uma boa lição", na razão pela qual o juiz deveria decidir a favor do seu pedido, etc.
Ela não estava disposta a transigir de forma alguma, pretendendo não somente "mudar a mentalidade", mas também receber uma compensação!
Cansada e desapontada, optou por não se utilizar dos nossos serviços jurídicos gratuitos, e jamais tivemos notícias novamente.
Ela não pôde compreender que não valia a pena se aborrecer por isto, como fazer para relevar estes fatos desagradáveis da vida e procurar amenizar os prejuízos causados. Não pôde portanto determinar as suas prioridades, apenas no sentido de revogar o contrato, optando por mandar cartas a todos os envolvidos, exigindo o que ela achava que seria o correto.
Cartas e desculpas são uma ótima ferramenta, porém geralmente não são a solução dos seus problemas.
Sejamos sensatos:
Israel é um Estado peculiar, muito jovem, e composto por inúmeras mentalidades e panoramas diversos. Estamos dando os primeiros passos na conscientização dos direitos dos consumidores. Ressalte-se que, se compararmos a situação atual com a de dez anos atrás, se verifica um grande progresso.
Assim sendo, recomendamos que você tente se focalizar nas questões principais dos problemas, e procure escolher dentre as mais importantes, a serem resolvidas imediatamente. Concentre-se nisto já que se trata do caminho mais seguro para evitar problemas com os quais não pode lidar neste momento (devido a dificuldades no idioma, falta de tempo, etc). Agindo assim, você estará, simultaneamente, evitando decepções e economizando dinheiro.
Atenciosamente,
D. Henrique (Tzvi) Szajnbrum, Advogado.

