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Voleh in Jerusalem

We will be in Jerusalem again. Our next schedule: Sunday , April 29th.

Quando o sonho já não se adequa à realidade

 
"Sonhar não custa nada, mas meu sonho é tão real (...)" – talvez alguns de vocês se recordem desta frase, que integrou o famoso samba-enredo de uma escola de samba. Mas o que ela tem a ver com este artigo? Continue a ler, e compreenderá.
 
Sonhar dormindo é uma benção; sonhar acordado geralmente causa transtornos; porém, viver sonhando pode vir a se tornar uma tragédia.
 
Todos nós temos sonhos, e na medida do possível, tentamos concretizá-los. Eles são parte integrante das nossas vidas (ou pelo menos deveriam ser), assim como as alegrias, tristezas e desilusões. Mas algo que não devemos permitir é que eles dominem irremediavelmente a nossa mente.
 
Como advogado atuante, tenho contato com clientes brasileiros que residem em Israel, e se orgulham ao relatarem sobre as suas “contas milionárias” no banco, seu avião particular, ou até mesmo sobre a sua fazenda cheia de cabeças de gado. Outros gostam de títulos, dedicam horas e horas no ato de enumerar as suas pós-graduações e descrever os cargos que ocuparam como “empresários bem sucedidos”. Fico refletindo sobre esses casos, e não consigo entender como estas “posses” todas desaparecem no momento em que chegam em Israel. Aqui eles não conseguem validar seus diplomas, não têm uma remuneração mensal nem mesmo próxima à que auferiam no Brasil, de modo que passam a se ocupar, simplesmente, do ato de reclamar sobre a vida dificil que aqui encontraram.
 
Os anseios muitas vezes desconhecem limites. Gostaria de esclarecer que não tenho como pretensão ser um destruidor de sonhos e nem quero mudar ninguém. Acreditem ou não, muitas vezes inclusive até gosto de brincar do “Jogo dos Sonhos” – você pode sonhar e eu não vou te incomodar. O perigo deste "jogo" é que o seu sonho pode se tornar um pesadelo, a partir do momento em que você se recusa a acordar e perceber que a vida real pode ser bem diferente do que idealizou; que nela somos os principais responsáveis pelos nossos atos, bem como pelas dívidas que assumimos. Devemos ainda ter em mente que dificilmente encontraremos alguém que queira fazer parte dos nossos pesadelos.
 
Como os sonhos, o sofrimento também consiste em parte integrante das nossas vidas, de modo que não podemos simplesmente eliminá-lo nem ignorá-lo, é imperioso aprender a conviver com ele.
 
Este pode vir na forma da dor de uma perda, tanto de um ente querido quanto de um patrimônio. Mesmo esta dor, por mais difícil que seja, devemos encarar com os dois pés no chão, de forma consciente; e não com a cabeça no mundo da lua.
 
A adaptação a um novo país, um novo sistema, e/ou uma nova mentalidade, não raro pode acarretar em um "trauma" de diferentes proporções, dependendo da pessoa e do que ela está disposta a enfrentar. Aqueles que nao podem arcar com o peso destas dificuldades acabam por se esconder atrás de uma situação fictícia, deturpam a realidade e se negam a aceitar os fatos como eles realmente o são.
 
Os sonhadores procuram frequentemente uma empatia por parte dos outros, porém nem sempre poderão encontrá-la. Eles acreditam que poderão mudar a realidade, algo que não ocorre automaticamente, a não ser que a própria pessoa tome uma atitude efetiva para possibilitar isto.
 
Dívidas nao desaparecem. Os israelenses não vão mudar de comportamento para que você consiga se acostumar melhor; o governo nao vai criar ou mudar leis para que seu diploma ou certificado profissional seja devidamente reconhecido; a equipe médica do hospital também não vai se submeter a um "curso de boas maneiras" para satisfazê-lo. Os sonhadores andam reclamando com muita frequência, e demandando mudanças para facilitar a adaptação a uma nova realidade – sinto muito em acordá-los, mas não posso me abster de afirmar que isto nao vai acontecer.
 
O Seguro Nacional e a Previdência Social não são elaborados por sonhadores, e evidentemente não se destinam a beneficiá-los. Os fatos são o que são, e os sonhadores terão que acordar para esta realidade, mais cedo ou mais tarde. O sistema bancário nao vai mudar em prol dos sonhadores e os débitos terão que ser quitados, de uma forma ou de outra.
 
Diante de todo o exposto, quero dizer que estou disposto a ajudar os sonhadores a "acordar". Quanto a outros, posso conviver com seus sonhos. Por que não? Se você tem à sua disposição alguns milhões em dinheiro e só precisa de um parceiro para saber como aplicar esse dinheiro todo, posso até lhe dar algumas boas idéias de como fazê-lo. Mas sair do escritório para encorajar a alimentação de sonhos impossíveis? Não, obrigado – seus sonhos terminam onde a minha realidade começa.
 
Se você tem um problema, eu e a minha equipe estaremos à sua disposição para ajudar no que fôr possível, com a condição de que os sonhos sejam armazenados em algum lugar bem distante. Se você marca uma entrevista e nao aparece porque esteve ocupadíssimo com compromissos importantíssimos, e todos os superlativos possíveis e imagináveis, a próxima será paga e não gratuita, porque a sua pretensão e os seus direitos terminam logo ali onde os meus começam.
 
Caso esteja endividado até o pescoço e persista no questionamento de "como eu vou resolver seus problemas", antes de qualquer coisa peço que não conte comigo para quitar as suas dívidas. Elas foram assumidas por você e não por mim. Por favor, não me perguntem: "Como vou me virar sem o meu carro?" ou "Como vou visitar minha família se tenho um impedimento de sair do país?" As respostas são bastante simples: Vai ter que se virar de ônibus e a família terá que te visitar aqui!
 
Nós podemos fazer maravilhas, mas não operamos milagres. A nossa meta é permitir que os sonhadores vivam da forma que lhes convier, até que os seus sonhos comecem perder a proporção e comecem a causar problemas. Quando os sonhos não se ajustam mais à vida real, isto significa que chegou a hora de encarar a vida como ela é.
 
 
Atenciosamente, 

D. Henrique (Tzvi) Szajnbrum, Advogado.

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